Carlos Furtado
Há frases que atravessam séculos como lâminas finas: discretas, elegantes, mas capazes de cortar até o mais espesso dos véus. “À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta” é uma dessas sentenças atemporais.
Dizem que Júlio César a proferiu ao afastar Pompeia de um escândalo no qual, ironicamente, ela talvez fosse a única inocente. Era uma lição dura sobre a natureza humana: na praça pública, a dúvida pesa mais que a verdade; e a reputação tem o hábito cruel de caminhar na frente dos fatos.
Pois bem. Séculos depois e muito longe da Roma antiga e de suas intrigas palacianas, o Maranhão assiste a um episódio que faria o próprio César ajustar sua toga. Uma de suas poucas instituições centenárias, guardiã de memórias e sentinela da tradição acadêmica, lançou o Edital n.º 19/2025 — um concurso literário, desses que prometem incentivar a pesquisa, o talento e a justa competição entre estudiosos.
Até aí, tudo dentro do rito. O curioso — para não dizer pitoresco — veio depois. Membros da própria instituição inscreveram-se no concurso. A banca julgadora? De quatro membros, dois pertenciam à própria casa promotora. O resultado? Justamente esses dois membros internos foram proclamados vencedores.
É exatamente aqui que surge a questão nevrálgica, que transcende o episódio e se insere no campo universal da ética institucional. Quando integrantes de uma mesma casa avaliam seus pares, o processo repousa, inevitavelmente, sob o espectro do conflito de interesses. Não importa se o julgamento foi honesto e tecnicamente irrepreensível; importa, sobretudo, como ele é percebido.
A ética não se sustenta apenas na ausência do erro, mas na ausênciada dúvida.Conflitos de interesse podem ser sutis: um viés inconsciente, uma
simpatia involuntária, uma rigidez exagerada para “provar imparcialidade”. Podem ser explícitos: favoritismos, vínculos pessoais ou a tentação de prestigiar a própria instituição por meio de seus nomes mais conhecidos. E até quando nada disso existe — até quando tudo é feito com pureza de intenção — permanece o dano invisível: a suspeita pública, que esvazia a credibilidade do concurso e compromete a legitimidade da conquista do vencedor.
Instituições sérias, mundo afora, conhecem bem esse risco e adotam mecanismos simples, porém robustos: júris externos, avaliações cegas, declarações formais de conflito de interesse, códigos de conduta que disciplinam premiações internas. São procedimentos que protegem a instituição, os avaliadores e, principalmente, os próprios premiados.
É aqui que César volta, silencioso, para observar a cena maranhense. E talvez murmurasse: “Pompeia entenderia”. Porque não basta que o concurso seja justo — é preciso que pareça justo. A aparência, nesse terreno, não é cosmética: é o próprio alicerce da confiança pública.
A crônica da vida real é feita desses pequenos desencontros entre o que é e o que parece ser. Não há crime, não há dolo, não há escândalo — mas há um tropeço na estética da ética, que, afinal, é quase tão importante quanto a ética propriamente dita.
No fim, fica a lição antiga, que viajou dois mil anos para nos alcançar: quem ocupa lugar de honra precisa cuidar também da aparência do gesto, não por vaidade, mas porque a confiança do público é uma obra delicada — e frágil como um papiro ao vento.
E assim segue o Maranhão, entre concursos, memórias, literatos e crônicas. Roma já caiu. Mas seus ensinamentos continuam intactos.
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Historiador, Bacharel em Direito, Coronel Veterano da PMMA. Presidentes das ALMEBRAS (Brasileira) e da AMCLAM (Maranhense) de Letras Militares.